“Declaração
do CC é um retrocesso e permite abusos”
Duas semanas
depois do Conselho Constitucional (CC) declarar inconstitucional a norma
jurídica que dá poder ao ministro responsável pelo sector do trabalho de
revogar a contratação de trabalhadores estrangeiros, o dossier voltou a dominar
o debate entre Governo, empregadores e trabalhadores.
Ontem, no
final da terceira sessão ordinária da Comissão Consultiva do Trabalho,
denunciou-se as fragilidades que a decisão do CC pode criar. Os sindicatos,
representados pela Confederação dos Sindicatos Livres e Independentes de
Moçambique (Consilmo), entendem que a retirada de poderes ao ministro titular
da pasta do Trabalho, Emprego e Segurança Social contra trabalhadores
estrangeiros que cometem actos que atentam contra a dignidade humana é um
retrocesso na luta pelos direitos dos trabalhadores e vai permitir abusos. Os
sindicatos dizem que serão obrigados a recorrer ao próprio Conselho
Constitucional, à Procuradoria-Geral da República, Assembleia da República e
Presidência da República para mostrar o perigo que a medida representa para os
trabalhadores.
“Na
eventualidade de um estrangeiro abusar os trabalhadores, os sindicatos tinham
onde recorrer, que é o Ministério do Trabalho, para disciplinar as pessoas com
esse tipo de comportamento. Assim, as pessoas poderão recorrer a outras medidas
individuais, que não se sabe quais, para se defenderem, gerando outro tipo de
situações”, realsou o secretário-geral Consilmo.
A retirada
de poderes pode, segundo Timana, criar actos de xenofobia e mesmo escândalos.
“Esta medida cria um precedente perigoso, porque o mundo de trabalho tem
características próprias no que diz respeito a relações jurídico-laborais que
regem o vínculo entre empregador e empregado”.
Sobre a
matéria, João Loforte, secretário-geral da Comissão Consultiva do Trabalho
(CCT), disse que, de momento, o Governo não tem outra alternativa senão se
conformar com a medida do Conselho Constitucional.]
Denúncias
de corrupção
Ainda no que
tange a este assunto, a ministra do Trabalho reuniu com ONG e empresas
italianas, e apelou a denunciarem funcionários do Estado que se corrompem para
facilitar a contratação de estrangeiros, sem cumprir as exigências da
legislação moçambicana.
No encontro,
organizado com objectivo de esclarecer questões sobre as normas de contratação
de cidadãos estrangeiros, os italianos pediram a simplificação de
procedimentos. Na sua intervenção, Vitória Diogo garantiu ter anotado a
preocupação, mas alertou que há funcionários de má-fé que intervêm nos
processos, prometendo facilidades, mas acabam causado dificuldades que a lei
não contém.
A ministra
diz que os procedimentos de contratação de estrangeiros são claros. De 2015 até
o primeiro trimestre do ano em curso foram criados 621 mil novos empregos, dos
quais cerca de 20 mil são ocupados por estrangeiros.
Revisão
da Lei de Trabalho
No que tange
a este assunto, a Comissão Consultiva do Trabalho analisou ainda a necessidade
da revisão da lei que cria os tribunais de trabalho, de modo a actualizá-la às
novas dinâmicas do mercado laboral.
Segundo o
Governo, proponente da Lei número 18/94, o “enquadramento
jurídico-constitucional e a conjuntura económica e social em que foi aprovada
são diferentes das actuais, daí a necessidade de se adaptar a lei ao novo
ambiente para dar resposta ao movimento sindical, que sempre clamou pela
implementação efectiva destes tribunais”. Sobre a matéria, João Loforte,
secretário-geral da Comissão Consultiva do Trabalho (CCT), disse que o consenso
alcançado foi de elevar o nível dos tribunais distritais para que alguns
assuntos não transcendam ao nível provincial. “O Governo está a trabalhar na
revisão da lei em vigor para dar importância aos tribunais de trabalho e
permitir a sua rápida implantação. Este assunto vai ao Conselho de Ministros
ainda este mês”, anunciou.

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