O economista moçambicano António
Francisco diz que o roteiro para levar a dívida pública de Moçambique a
níveis sustentáveis será longo e está condicionado pela margem de manobra que a
Frelimo, partido no poder, vai dar ao Governo,
O pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de
Moçambique António Francisco declarou
que "O processo de tornar a dívida pública novamente sustentável poderá
ser mais ou menos longo, melhor ou pior gerido, dependendo da forma como o
partido Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] irá permitir que o seu
Governo realize e implemente a terapia que é preciso realizar"
Para o académico, não é preciso ser bruxo ou feiticeiro para adivinhar e
saber que o processo de sobre-endividamento em Moçambique tornou-se cíclico,
com um histórico relativamente curto, comparativamente à maioria das economias
desenvolvidas ou emergentes "Mas, ainda que curto, já é suficiente para
permitir perceber a natureza cíclica do endividamento público
insustentável", acrescentou António Francisco.
Apesar de reconhecer que o regresso da dívida de Moçambique para níveis
sustentáveis será longo, o economista António
Francisco defende que, a curto-prazo ou até meados de 2017, o roteiro para
esse objectivo estará definido.
"Infelizmente, tal roteiro tem sido traçado de forma assertiva pelo
FMI e de forma muito defensiva, para não dizer contrariada, pelo Governo. Este
está com muita pressa para ver se renegoceia a dívida, mas tal pressa só
denuncia uma grande ansiedade em resolver mal o problema", referiu
Francisco.
Apesar de reconhecer ironicamente que as chamadas dívidas ocultas, no valor
de 1,4 mil milhões de dólares, reveladas em Abril, são a "principal
vedeta" dos encargos do Estado moçambicano, o economista considerou que constituem apenas uma parte de
um todo mais amplo, quer em termos de dívida pública, em geral, quer de opção
estratégica de crescimento económico. "O que as dívidas ocultas fizeram
foi antecipar a insustentabilidade da dívida pública moçambicana. Porque elas
representam uma pesada ´overdose`, capaz de colocar a economia em coma". Após
a revelação dos empréstimos secretamente avalizados pelo executivo moçambicano,
entre 2013 e 2014, a dívida pública de Moçambique disparou para 11,6 mil
milhões de dólares e dados oficiais apontam que o volume da dívida pública ver
terminar o ano em curso nos 130% do Produto Interno Bruto (PIB).
O Ministério da Economia e Finanças já avisou que o país não tem dinheiro
para pagar as próximas prestações das três empresas que beneficiaram
secretamente dos avales do Governo e quer reestruturar os encargos com os
credores.
O Governo pediu entretanto um novo programa de apoio ao FMI, que, à
semelhança do grupo de doadores do orçamento do Estado, cortou o financiamento
a Moçambique por causa do escândalo dos empréstimos ocultos.
O FMI e o Governo reataram negociações, enquanto decorre uma auditoria
internacional independente às empresas beneficiadas pelos empréstimos, mas as
regras do Fundo impedem ajuda financeira a países com uma trajectória
insustentável de dívida, como é o caso de Moçambique.
Ao mesmo tempo, o executivo está a aplicar pesadas medidas de austeridade
para conter a grave crise económica que se sente no país e os efeitos do
conflito entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), cujas
negociações de paz não tiveram resultados em 2016.
"E claro, como acontece geralmente, nestes casos, o Governo nega até
não poder mais. O mesmo fez o FMI, ao fazer vista grossa ao progressivo
endividamento, dando a impressão que estava tudo sob controlo", assinalou.

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