O antigo bastonário da Ordem dos Advogados (OA) moçambicana
Tomás Timbane avisou hoje que o retrocesso nas conquistas do Estado de Direito
já não é apenas um risco, mas uma realidade resultante da instabilidade que se
vive no país.
"Isso já está a acontecer, a partir do
momento em que as pessoas não podem circular livremente, em que assistirmos a
mortes inexplicadas em vários pontos do país. Estamos a perder o combate e as
conquistas que fomos tendo ao longo o tempo", defendeu o ex-bastonário em
declarações aos jornalistas, à margem do lançamento do seu novo livro,
"Ordem no Estado de Direito". Tomás Timbane, bastonário da OA durante
três anos até ao início de 2016, sustentou que tem de haver uma consciência do
país no seu todo da situação actual para que os direitos e liberdades
fundamentais sejam respeitados e para que os responsáveis pelos crimes não
saiam impunes.
"Não estamos a falar de uma coisa que vai
acontecer, ela está a acontecer", alertou, numa referência à crise militar
entre as forças do Governo e da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo),
maior partido de oposição, que afecta a circulação de pessoas no centro do país
e que tem envolvido relatos de raptos e assassínios de dirigentes dos dois
lados.
Tomás Timbane descreve o seu livro como um testemunho dos
três anos que liderou a OA, durante os quais exprimiu duras mensagens sobre a
independência de órgãos de justiça e da Polícia de Investigação Criminal,
abusos e corrupção nas corporações policiais e contundentes discursos de
repulsa pelos assassínios de magistrados e juristas.
"O que quis foi condensar e por à
disposição de um público maior foi as intervenções públicas, mas também alguns
documentos inéditos, que ilustram o combate que a advocacia tem de travar, não
só para a afirmação da Ordem dos Advogados mas para a afirmação da consciência
dos cidadãos, porque ajuda a reflectir melhor sobre o nosso país", afirmou
Timbane, descrevendo o seu quarto livro.
Apesar de já não liderar a “AO”, o antigo bastonário
considera que os desafios não mudaram e que o compromisso com o Estado de
Direito continua a ser uma prioridade, nomeadamente em questões de acesso à
justiça ou direitos humanos, para o qual são chamados advogados, Governo,
deputados e a sociedade em geral.
Tomás Timbane alertou ainda para "a constatação muito
clara" de que se está a perder o combate das regras éticas e deontológicas
na advocacia.
"Quanto mais eticamente estivermos preparados, melhor vamos
exercer as nossas funções como advogados. Os desafios não mudaram, temos de
lutar por um país inclusivo e em paz", declarou.
O livro "Ordem no Estado de Direito - Visão, Desafios e
Perspetivas", com chancela da Editora W, foi apresentado hoje por José
Manuel Caldeira, titular da carteira profissional n.º 2 da OA, e é prefaciado
por Elísio Macamo, professor de estudos africanos na Universidade de Basileia

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